Cadernos do Terceiro Mundo

O IEMA apoia o projeto de digitalização do acervo da revista Cadernos do Terceiro Mundo, revista que circulou em três idiomas (português, inglês e espanhol) e cobriu os fatos dos países da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia até então ignorados pela mídia hegemônica. Ela foi fundada pelo jornalista e político maranhense Neiva Moreira, juntamente com Beatriz Bissio, dentre outros.

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A revista, que inicialmente se chamava Tercer Mundo, foi concebida em 1974, em Buenos Aires. A sua formação deveu-se a um importante grupo de jornalistas que se aglutinavam a partir de uma perspectiva editorial que se inseria no contexto da Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC) e que tinha como eixo a abordagem das questões mais sensíveis dos povos que lutavam contra a colonização e exploração no então chamado Terceiro Mundo. Este coletivo de jornalistas buscava produzir uma publicação que rompesse o bloqueio midiático imposto pelas agências imperialistas a respeito das lutas sociais que naquela quadra histórica estavam sendo travadas nos territórios daquela parte do mundo e não alinhados.

Muitos desses jornalistas vinham dos exílios e haviam sido formados nas lutas sociais dos seus países de origem. [1] A Argentina, que no momento se encontrava em um aparente processo de redemocratização com a volta de Perón do exilio, pensava-se que seria uma porta de chegada da diáspora latino-americana. Contudo, tal aposta não se confirmou e logo a revista Tercer Mundo, com a publicação de apenas nove edições, teve que ser deslocada para a cidade do México onde outros jornalistas se agregaram e o projeto passou a se tornar referência jornalística e política para os militantes sociais. [2]

Depois da anistia no Brasil, em 1980, Neiva Moreira e Beatriz Bissio vêm para o Brasil. Em 1989, a edição impressa de sua revista em Portugal – que coexistia com a edição feita no Brasil – foi unificada com a edição brasileira. Além dessas, durante dez anos circulou, também, uma edição em inglês, com o nome Third World. A editora foi, ainda, responsável pela publicação de duas outras importantes revistas: Ecologia e Desenvolvimento, que nasceu, em 1991, no contexto das discussões prévias à Rio-92, e a Mercosul, lançada em 1992 e que antecedeu a própria assinatura do Tratado de Assunção que formaliza a criação do Mercosul. Em 2000, a editora muda seu nome para Editora Terceiro Milênio e transfere-se para o Rio de Janeiro.

[1]          Seus fundadores foram Neiva Moreira, jornalista e político brasileiro exilado pelo golpe em 1964, os argentinos Pablo Piacentini e Julia Constenla e a uruguaia Beatriz Bissio. Neiva Moreira, que, no Brasil, tinha exercido vários mandatos como deputado estadual e, depois, como deputado federal pelo estado do Maranhão, além de ter exercido a função de Secretário-Geral da Frente Parlamentar Nacionalista durante o governo do presidente João Goulart, teve seus direitos cassados no primeiro Ato Institucional da ditadura civil-militar brasileira, juntamente com o próprio presidente deposto, Leonel Brizola, Miguel Arraes e outros dirigentes importantes do país. Em seu exílio, continuou a exercer sua profissão de jornalista, tendo sido enviado, como correspondente do diário oposicionista uruguaio Ahora, para cobrir a Quarta Conferência dos Países Não-Alinhados, realizada em Argel entre os dias 5 e 9 de setembro de 1973, onde conversou com jornalistas africanos, árabes, asiáticos e outros companheiros latino-americanos sobre o desafio de articular os meios para se fornecer uma informação alternativa às grandes agências hegemônicas.

[2]          No México, a revista não contou com a presença de todos seus fundadores. Apenas Neiva Moreira e Beatriz Bissio transferiram-se para aquele país. Julia Constenla e Pablo Piacentini foram para a Itália, sendo que, este último, continuou esporadicamente contribuindo para a revista por ter retomado suas atividades na agência InterPress Service, fundada por ele e pelo jornalista ítalo-argentino Roberto Savio.